1 de novembro de 2009

Fases da Lua

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Afonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13 de maio de 1881 - Rio de Janeiro, 1 de Novembro de 1922)


Lima Barreto, foi um jornalista e um dos mais importantes escritores libertários brasileiros. Era filho de João Henriques de Lima Barreto (mulato nascido escravo) e de Amália Augusta (filha de escrava agregada da família Pereira Carvalho). O seu pai foi tipógrafo. Aprendeu a profissão no Imperial Instituto Artístico, que imprimia o famoso periódico "A Semana Ilustrada". A sua mãe foi educada com esmero, sendo professora da 1º à 4º séries. Ela morreu cedo e João Henriques trabalhou muito para sustentar os quatro filhos do casal. João Henriques era monarquista, ligado ao Visconde de Ouro Preto, padrinho do futuro escritor. Talvez as lembranças saudosistas do fim do período imperial no Brasil, bem como suas remotas lembranças da Abolição da Escravatura na infância tenham vindo a exercer influência sobre a visão crítica de Lima Barreto sobre o regime republicano.
Lima Barreto, mulato num Brasil que mal acabara de abolir oficialmente a escravatura, teve oportunidade de boa instrução escolar. Após a morte da mãe, passou a freqüentar a escola pública de D. Teresa Pimentel do Amaral. Em seguida, passou a cursar o Liceu Popular Niteroiense, após o seu padrinho, o visconde de Ouro Preto, concordar em custear sua educação. Lá ficará até 1894, completando o curso secundário e parte do suplento. Em 1895, transferiu-se para a única instituição pública de ensino secundário da época, o conceituado Colégio Pedro II, cujos estudantes eram oriundos basicamente da elite econômica. No ano de 1895 foi admitido no curso da Escola Politécnica, no Rio de Janeiro. Porém, foi obrigado a abandoná-lo em 1904 para assumir o sustento dos irmãos, devido à loucura que afligiu o seu pai. Tendo sido repetidamente reprovado por não se interessar muito pelas matérias - passava as tardes na Biblioteca Nacional -, deixou de graduar-se em Mecânica. Data dessa época a sua entrada no Ministério da Guerra como amanuense, por concurso. O cargo, somado às muitas colaborações em diversos órgãos da imprensa escrita, garantia-lhe algum sustento financeiro. Não obstante, o escritor, que só veio a ser reconhecido fundamental para a literatura brasileira após seu precoce falecimento, cada vez mais deixava-se consumir pelo alcoolismo e por estados emocionais caracterizados por crises de profunda depressão e morbidez.

Simpático ao Anarquismo, passou a militar na imprensa socialista. Sua vida foi atribulada pelo alcoolismo e por internações psiquiátricas, ocorridas durante suas crises severas de depressão - à época era um dos sintomas pertencentes ao diagnóstico de "neurastenia", constante de sua ficha médica - vindo a falecer aos 41 anos de idade.

Em 1993, retomando as pesquisas realizadas por Francisco de Assis Barbosa, biógrafo do autor e principal gestor da publicação póstuma de sua obra, Bernardo de Mendonça reuniu no livro Um Longo Sonho do Futuro os seus principais textos confessionais, o Diário Íntimo e o Diário do Hospício, a artigos de jornal e a correspondência ativa, para compor um grande painel autobiográfico deste escritor que, na interpretação de muitos de seus leitores, encarna um dos maiores e inquietantes exemplos, não só do desencontro entre arte e mercado, mas das iniqüidades sociais na história brasileira.

Lima Barreto foi o crítico mais agudo da época da República Velha no Brasil, rompendo com o nacionalismo ufanista e pondo a nu a roupagem da República, que manteve os privilégios de famílias aristocráticas e dos militares. Em sua obra, de temática social, privilegiou os pobres, os boêmios e os arruinados. Foi severamente criticado pelos seus contemporâneos parnasianos por seu estilo despojado, fluente e coloquial, que acabou influenciando os escritores modernistas. Também queria que a sua literatura fosse militante. Escrever tinha finalidade de criticar o mundo circundante para despertar alternativas renovadoras dos costumes e de práticas que, na sociedade, privilegiavam pessoas e grupos. Para ele, o escritor tinha uma função social.

Texto extraído de:

http://pt.wikipedia.org/wiki/Lima_Barreto

Citações:

"Não amei nunca, nem mesmo minha mulher que é morta e pela qual não tenho amor, mas remorso de não tê-la compreendido, mais devido à oclusão muda do meu orgulho intelectual; e tê-la-a amado certamente, se tão estúpido sentimento não tivesse feito passar por mim a única alma e pessoa que me podiam inspirar tão grave pensamento" - "O Cemitério dos Vivos", Editora Brasiliense, São Paulo, 1956. página 68.

"O Brasil não tem povo, tem público." - citado em "O império do grotesco" - Página 151; de Muniz Sodré, Muniz Sodre - Raquel Paiva, Raquel Paiva - Publicado por Mauad Editora Ltda, 2002 ISBN 8574780618, 9788574780610 - 154 páginas.

"Tudo tem um limite e o football não goza do privilégio de cousa inteligente." - Careta, 1 de julho de 1922.

Citações extraídas de:

http://pt.wikiquote.org/wiki/Afonso_Henriques_de_Lima_Barreto

Os Bruzundangas - Lima Barreto


OS BRUZUNDANGAS

Lima Barreto

Hais tous maux où qu’ils soient, très doux Fils.
Joinville. São Luís.

PREFÁCIO

Na Arte de furtar, que ultimamente tanto barulho causou entre os eruditos, há um capítulo, o quarto, que tem como ementa esta singular afirmação: “Como os maiores ladrões são os que têm por oficio livrar‑nos de outros ladrões.”

Não li o capítulo, mas abrindo ao acaso um exemplar do curioso livro, achei verdadeira a cousa e boa para justificar a publicação destas despretensiosas “Notas”.

A “Bruzundanga” fornece matéria de sobra para livrar‑nos, a nós do Brasil, de piores males, pois possui maiores e mais completos. Sua missão é, portanto, como a dos “maiores” da Arte, livrar‑nos dos outros, naturalmente menores.

Bem precisados estávamos nós disto quando temos aqui ministros de Estado que são simples caixeiros de venda, a roubar‑nos muito modestamente no peso da carne‑seca, enquanto a Bruzundanga os tem que se ocupam unicamente, no seu ofício de ministro, de encarecerem o açúcar no mercado interno, conseguindo isto com o vendê‑lo abaixo do preço da usina aos estrangeiros. Lá, chama‑se a isto prover necessidades públicas; aqui, não sei que nome teria...

E semelhante ministro daqueles “maiores” de que a Arte nos fala, destinados a ensinar‑nos como nos livrar dos nossos modestos caixeiros de mercearias ministeriais.

Não contente com ter dessas cousas, a Bruzundanga possui outras muitas que desejava enumerar todas, pois todas elas são dignas de apreço e portadoras de ensinamentos proveitosos.

Como não poderíamos aproveitar aquele caso de um doutor da Bruzundanga, ele mesmo açambarcador de cebolas, que vai para uma comissão, nomeada para estudar as causas da carestia da vida, e propõe que se adotem leis contra os estancadores de mercadorias?

É que este doutor dos “maiores” de que nos fala o célebre livrinho sabia perfeitamente que não estancava e tinha o hábito de reservas mentais. Não açambarcava, mas “aliviava” logo uma grande porção de mercadorias para o estrangeiro, por qualquer cousa, de modo que... Le pauvre homme! Podia até iludir o nosso pobre Beckman!

Com este exemplo, os menores daqui poderão ser denunciados por este grandalhão de lá, tão generoso e desinteressado, e o nosso povo poderá livrar‑se deles.

Conheci na Bruzundanga um rapaz (creio que está nas “Notas”), de rabona de sarja e ares de familiar do Santo Ofício, mas tresandando a Comte, senão a anticlericalismo, que, de uma hora para a outra, se fez reitor do Asilo de Enjeitados, apandilhado com padres e frades, depois de ter arranjado um rico casamento eclesiástico, a fim de ver se, com o apoio da sotaina e do solidéu, se fazia ministro ou mesmo mandachuva da República. Que “maior” não acham?

E aquele que, tendo sido ministro do imperador da Bruzundanga e seu conselheiro, se transformou em açougueiro para vender carne aos vizinhos a dez réis de mel coado, graças às isenções que obteve com o prestígio do seu nome, dos seus amigos, da sua família e das suas antigas posições, enquanto os seus patrícios pagavam‑lhe o dobro?

Quantos exemplos de lá, bem grandes, nos irão precaver contra os pequeninos de cá... A Arte fala a verdade...

Outra cousa curiosa da Bruzundanga, das grandes, das extraordinárias, é a sua “Defesa Nacional”.

Lá, como em toda a parte, se devia entender por isso a aquisição de armamentos, munições, equipamentos, adestramento de tropas, etc.; mas os doges do Kaphet (vide texto) entenderam que não; que era dar‑lhes dinheiro, para elevar artificialmente o preço de sua especiaria. De que modo? Retendo o produto, proibindo‑lhe a exportação desde certo limite, conquanto se houvessem tenazmente oposto a que semelhante medida fosse tomada no que toca às utilidades indispensáveis à nossa vida: cereais, carnes, algodão, açúcar, etc.

É preciso notar que tais utilidades, como já fiz notar, iam para o estrangeiro por metade do preço, menos até.

Aprendamos por aí a conhecer os nossos “menores”.

Poderia muito bem falar de outros grossos casos de lá, capazes de nos livrar dos tais pequenos daqui; mas, para quê?

As páginas que se seguem vão revelá-los e eu me dispenso de narrá‑los neste curto prefácio, Pobre terra da Bruzundanga! Velha, na sua maior parte, como o planeta, toda a sua missão tem sido criar a vida e a fecundidade para os outros, pois nunca os que nela nasceram, os que nela viveram, os que a amaram e sugaram‑lhe o leite, tiveram sossego sobre o seu solo!

Ainda hoje, quando o geólogo encontra nela um queixal de Megatherium ou um fêmur de Propithecus tem vontade de oferecer à Minerva uma hecatombe de bois brancos!

Vivos, os bons são tangidos daqui para ali, corridos, vexados, se têm grandes ideais; mortos, os seus ossos esperam que os grandes rios da Bruzundanga os levem para fecundar a terra dos outros, lá embaixo, muito longe...

Tudo nela é caprichoso, e vário e irregular. Aqui terreno fértil, úbere; acolá, bem perto, estéril, arenoso.

Se a jusante sobra cal, falta água; se há para montante, falta cal...

As suas florestas são caprichosas também; as essências não se associam. Vivem orgulhosamente isoladas, tornando‑lhes penosa a exploração. Aqui, está uma espécie e outra semelhante só sé encontrará mais além, distante...

Envelheceu, está caduca e tudo que vem para ela sofre‑lhe o contágio da sua antiguidade: caduquece!

Contudo, e talvez por isso mesmo, os seus costumes e hábitos podem servir‑nos de ensinamento, pois, conforme a Arte de furtar diz: “os maiores ladrões são os que têm por ofício livrar‑nos de outros ladrões”.

Por intermédio dos dela, dos dessa velha e ainda rica terra da Bruzundanga, livremo‑nos dos nossos: é o escopo deste pequeno livro.

LIMA BARRETO Todos os Santos, 2‑9‑17.

*Faça o Download do livro completo em:

http://www.livrosparatodos.net/downloads/os-bruzundangas.html


Il Profumo del Solitario (Milo Manara)













Fauna de botequim


Quando a morte visita o bar

O bar, pela função social que assume, agrega personalidades que tem a princípio, um mesmo interesse. E por difícil que às vezes é aceitar isso, melhor assumir logo, o álcool é o motivo primeiro do ato de se locomover para estacionar em um lugar e permanecer, deixando de lado obrigações importantes, mas que há de se convir, totalmente desinteressantes, se a outra opção te conduz a sorver sem delicadeza, uma dose de bebida destilada que te levará ao paraíso... e que será seguida de outra e mais outra, fazendo com que os mais assíduos, e nesse caso deve-se salientar, diários mesmo, freqüentes, rotineiros, acabem por estabelecer um convívio intenso, que leva o bar de volta à função social de agregar essas personalidades. Alguns chegam a chamar o bar de "farmácia". São os primeiros a chegar, levados pelo desconforto que a abstinência do álcool provoca no organismo. Há também (nesse caso inumeráveis) gaiatos que dão o status de "escritório", ou seja, o ambiente de trabalho daquele sujeito quando "o beber o chama", ao bar.

Nessa verdadeira fauna de habituées, é possível observar algumas personalidades bastante singulares. Lembro de um conviva de bar já alvo da visita de "Tânatos". Um amigo de quem guardo boas recordações e histórias, dentre elas, uma idéia que guardou na cabeça, de colocar três filmadoras em diferentes ângulos do botequim, com o objetivo de registrar aquele festival bizarro de circunstâncias e pessoas, que diariamente se fundiam no bar, promovendo situações que nos botavam a chorar de tanto rir. Mas sempre que a morte visita o bar, ceifando a vida e a presença de um dos membros daquele ambiente cheio de realidades expostas ao mesmo tempo em que guardadas, pois o álcool nem sempre é capaz de romper determinadas barreiras pessoais, aquele pequeno grupo social, manifesta seu pesar.

Francisco era um grande sujeito, em todos os sentidos, mas um tanto ímpar também. Chamava a atenção a presença daquele camarada alto, me passava a impressão de medir dois metros ou mais. Além de alto, forte também, fora excelente capoeirista. Tinha um jeito sisudo, aquela famosa cara de poucos amigos, porque na verdade, quase sempre chegava e se isolava em uma mesa, com volumes consideravelmente grandes de textos em folhas, que lia meticulosamente por ser um profundo conhecedor da língua por profissão, e creio eu, por prazer também. Revisava textos de livros, revistas, publicações, e nesse momento, não gostava muito de ser importunado. Ostentava barba e cabelo compridos que não aparentavam receber muitos cuidados. Ombros largos, impossível não reparar o tamanho de suas mãos, quando as estendia para cumprimentar alguém. Mas terminado seu trabalho, a sisudez dava espaço a um jeito alegre e brincalhão. Insubordinado, não era muito dado a regras de etiqueta, nem à patrulha do "politicamente correto". Era um sujeito sincero, transparente, não se escondia atrás de encenações, era o que era e pronto! Costumava-se dizer em alguns bares aos quais frequentava, que bastante cedo começava sua via sacra pelos botequins que o tinham com deferência e como referência também, cruzando a cidade de ponta a ponta, para bater seu ponto em seus muitos "escritórios".

Recentemente havia escapado da morte em uma tentativa de assalto, chegou a ser baleado, mas era forte, não sucumbiu nessa ocasião. No entanto a morte não permite exceções. Apesar de tão temida, é bastante honesta, irá apresentar-se a todos, indiferente às diferenças que separam ricos de pobres, feios, bonitos, homens, mulheres... passei por um desses redutos boêmios por esses dias, apenas para confirmar a notícia de que os bares estavam mais tristes, um dos seus não mais apareceria. Francisco pegou o bonde.

Rodrigo