Mostrando postagens com marcador texto vivo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador texto vivo. Mostrar todas as postagens

10 de outubro de 2011

Longo é o caminho, maiores as sequelas.


Não era apenas evidente, era sim, inimaginavelmente mais que isso. Beirava o non sense. Um circo das aberrações, contudo sem uma atração sequer, materialmente palpável, fisicamente tangível, confortavelmente perceptível ao tato. Não estava na esfera do que se convencionou chamar, “realidade”. Era uma mistura homogênea por força e tração, entremeada ao hemisfério específico do cérebro, incumbido de processar essa categoria de informação que neurônios conduzem sem dar importância, sem querer. Livre das regras, prisioneiro de si. Se ao menos fosse sem gosto, o mosto que perturba a razão, sem deixar rastros no caminho que o segue, tamanha a devastação.

Acordei, mas não parecia ser eu quem ocupava minha carne. Acordei mas não me convenci. Imaginei que aquilo não podia estar certo. Eu deveria ser capaz de convencer ao menos a mim. Lembrei-me da noite anterior, um monstro acompanhava essa lembrança, o monstro do constrangimento, da vergonha, queria virar para outro lado, fingir não vê-lo, mas seria uma tarefa fracassada no projeto, difícil digerir erros, a própria estupidez. Mais que isso, impossível fugir à própria consciência, e também àquela massa imperativa em forma de monstro que nem mesmo uma pessoa apenas minimamente dotada do sentido da visão, seria capaz de esquivar os olhos, a fim de não ser confrontada por seus atos mais nefastos.

Rodrigo.

7 de fevereiro de 2011

Don't Talk To Me About Work (Título de uma canção de Lou Reed)

Ilustração da HQ de Lourenço Mutarelli Transubstanciação


De segunda à quinta-feira
Trabalha aquele homem louco
Para não arrefecer seu estigma
Evitar que ele recue, ainda que pouco

Quanto ao domingo,
à sexta e ao sábado
Também não se faz de coitado

Nesses dias, trabalha duro
Forjando em seu estigma,
Mais um detalhe,
outro corte, um furo

E a cicatriz, ao crescer
Trará como consequência
Caras e gestos de intransigência

Dedos austeros apontando em conclave
E faces fechadas em tom repreensivo
Abarrotadas de intolerância e crueldade

Que a turba nervosa e ensandecida
Transformará em uníssono
Como a bradar, pena e veredicto

- Vai trabalhar, seu covarde!!!

Rodrigo

17 de agosto de 2010

Blá Blá Blá


Datas podem até não ter importância alguma, mas algumas sempre ficam guardadas. É fácil esquecer datas de aniversário, casamento, primeiro beijo, morte. O fato, a cena, podem ficar registradas nitidamente na memória, sem contudo, trazer à luz, o registro datado em que tais eventos ocorreram.

O Tempo não se subordina às vontades humanas, nem mesmo ao rigor milimétrico de um relógio suíço, marca-se o tempo cronometricamente, mas e a impressão humana? Varia de acordo com as inúmeras circunstâncias, personalidades, ambientes e demais detalhes componentes do fato.

Falar sobre Tempo, é falar sobre Deus, onipresente, onisciente, onipotente, no entanto, não é possível encaixá-lo nos moldes das instituições que o ser humano criou para vincular a fé divina, aos confortos materiais. Merda!

Rodrigo

16 de agosto de 2010

Alopatia


Benditos analgésicos da dor abstrata. Interessante é reparar como nos tornamos reféns de nosso pensamento, e ao mesmo tempo, como é insubordinado o pensar em certas circunstâncias. Aí entram ansiolíticos, antidepressivos, hipnóticos, indutores do sono, ahhhhhhh! E tudo lícito, bastando uma receita que não é tão difícil conseguir. Laboratórios, que espetáculo, que organização, que lucros!!! O tráfico de drogas deve assemelhar-se a eles. Ai meus sais, acho que vou ingerir mais um comprimido de alprazolam, sei lá, me deu uma angústia repentina. Se tiver acabado tomo um clonazepam mesmo, mas se ele não segurar meus pensamentos, vou apelar para o flurazepam. Ainda assim, não consigo me sentir bem... Apático, bloqueado, mas há tempos não me sinto vivo. As pessoas são burras, previsíveis, limitadas demais. Me equivoco drasticamente com elas. No meu mundo resto eu e meus traumas, cada dia me isolo mais, cada dia vivo menos, cada dia acredito menos, cada dia que passa, menos desejo tenho. A idéia de me relacionar suscita desilusões, frustrações, sofrimento. Desperto repulsa nas pessoas, não gosto de mentira, sou besta. Penso que sou tão não-convencional na sociedade onde existo, que preferem manter-me a distância, pareço desagradável e lamento isso... Sei lá que merda é essa, mas acho que enfim, vou tomar mais um bromazepam. (maybe...)

3 de agosto de 2010

Rotineira


Há uns dias,
em que me sinto
meio assim:
Meio desperto,
meio morgado;
mais para o meio
que para o fim.
Vários "meios",
pouco de mim.

Rodrigo

31 de março de 2010

Pré ferir


Eu prefiro preterir
do que ser preterido.
Além de não doer,
me dá ares de vilão,
me sinto meio bandido.

Rodrigo

7 de março de 2010

Cegueira de perdedor

quem ama não mata
morre de amor
se entrega
nem sente
amar
o deixa contente
mas também o cega
não enxerga
que quem
se entrega
é um perdedor
e as pétalas
da rosa mais bela
de sua janela
se esvaem de seus dedos
sobrando os espinhos
que espetam e ferem
causando-lhe dor

quem ama não mata
morre de amor

Rodrigo

2 de março de 2010

Quarentenário


Passei os dias que antecederam meu quarentenário, incontáveis e morosos dias, centenas de milhares de minutos, milhões de segundos, frações e razões de tempo sem fim, fazendo um balanço desses quarenta carnavais (odeio carnavais! não precisei tanto tempo para perceber isto), e reparando que estava muito longe, mas longe o bastante daquilo que me parecia um saldo minimamente positivo. E eu... bem... para quem esperava renascer aos quarenta, me sentia demasiadamente sem estímulo para sair procurando forças, um motivo que me bastasse (certamente dois me confundiriam), e fazer o que se anunciava urgentemente necessário. Precisava sair da caverna, sacudir a carcaça já gasta (sem dúvida muito para lá de sua meia vida...), e remover teias, poeira, ácaros e demais elementos oriundos do ócio, comensais de minha produção abstrata e contexto de vida, e tentar fazer algo. Apor minha digital em algo com todas as etapas: começo, meio e fim, e nesse fim, uma meta ao menos alcançada. Mas... como!? Isso seria algo inédito em minha existência até aquele momento. Bem dizia meu irmão: "Pensar dói!". Acrescentaria a esta frase, a seguinte: “... e viver destrói!”.

(continua)

Rodrigo

7 de fevereiro de 2010

"Para gostar de escrever"


Se digo gostar de escrever
É necessário que escreva
Para sabê-lo
É necessário
Já ter depositado palavras
No vazio
Do antigo papel
Ou da tela
Do computador.

Gosto de escrever
E apesar de indolente
Talvez “escrever”
Algum dia
Freqüente
Mais tempo
Dos meus dias
Do que freqüenta
Nesses dias
Em que agora
Afirmo escrevendo
“Gostar de escrever”.

Nesse dia
Em que irei
Escrever
Por mais tempo
Irei despedir-me
Do medo
Que andou
Freqüentando
Meus dias.

Rodrigo
Belo Horizonte. 6 de fevereiro de 2010.

27 de dezembro de 2009

Forma x Ação


Não tenho fórmulas.
Sou “desformulado”.
Não me pergunte de que forma.
Também sou deformado.
Além disso não me formo.
Mas me informo.
Que o pior, é ser
desinformado.

Rodrigo

26 de dezembro de 2009

Um ano a menos!

Amargo dia após dia
o fato
de que visto o corpo
de uma espécie
de não-ser humano.
Se num dia,
uma metade
me parece pouco,
n’outro dia essa metade
é bem mais
que meu desejo louco
de um resto de felicidade
quase inexistente
nesse meu cotidiano.

Rodrigo

17 de dezembro de 2009

Vida Besta

Vão-se as horas
e o decorrer das horas
nada muda,
na existência cega,
burra, surda e muda,
de um sujeito
que espera o dia,
em que o destino
lhe resolva a vida.

Passam-se dias,
e o mesmo sujeito,
ainda aguarda
sem mover um dedo
algum acaso
que reverta a queda,
que teve início
em seu parto
prematuro.

Seguem semanas,
meses, anos...
E segue ele,
com seus desenganos,
entregue à sorte
por comodidade,
deixando anseios
de molho
na vontade.

Passou o tempo,
e o tal sujeito,
sente nas pernas,
nos pés, nas mãos...
sente no peito,
o pesado fardo
da idade.

O seu "presente"
não lhe trouxe
nenhuma novidade.

O seu "agora",
pela demora
fez-se tarde.

Morre o sujeito
que passou a vida,
olhando o tempo
sem achar saída
para os problemas
que não enfrentou.

Seu insucesso
acabou sendo o fruto
de uma árvore,
que por um descuido
ou negligência,
mas também
por ironia,
com apatia
ele mesmo
semeou.

Rodrigo

6 de novembro de 2009

Imprecisões Equivocadas

O limiar do esgotamento existencial,
acho que está situado,
entre a cozinha,
depois do banheiro,
em frente à fossa secreta,
escondida, malcheirosa e abjeta,
lá no fundo do quintal.
Mas posso estar enganado
como sempre, descuidado
vejo na linha reta,
um fractal.

Rodrigo

1 de novembro de 2009

Fauna de botequim


Quando a morte visita o bar

O bar, pela função social que assume, agrega personalidades que tem a princípio, um mesmo interesse. E por difícil que às vezes é aceitar isso, melhor assumir logo, o álcool é o motivo primeiro do ato de se locomover para estacionar em um lugar e permanecer, deixando de lado obrigações importantes, mas que há de se convir, totalmente desinteressantes, se a outra opção te conduz a sorver sem delicadeza, uma dose de bebida destilada que te levará ao paraíso... e que será seguida de outra e mais outra, fazendo com que os mais assíduos, e nesse caso deve-se salientar, diários mesmo, freqüentes, rotineiros, acabem por estabelecer um convívio intenso, que leva o bar de volta à função social de agregar essas personalidades. Alguns chegam a chamar o bar de "farmácia". São os primeiros a chegar, levados pelo desconforto que a abstinência do álcool provoca no organismo. Há também (nesse caso inumeráveis) gaiatos que dão o status de "escritório", ou seja, o ambiente de trabalho daquele sujeito quando "o beber o chama", ao bar.

Nessa verdadeira fauna de habituées, é possível observar algumas personalidades bastante singulares. Lembro de um conviva de bar já alvo da visita de "Tânatos". Um amigo de quem guardo boas recordações e histórias, dentre elas, uma idéia que guardou na cabeça, de colocar três filmadoras em diferentes ângulos do botequim, com o objetivo de registrar aquele festival bizarro de circunstâncias e pessoas, que diariamente se fundiam no bar, promovendo situações que nos botavam a chorar de tanto rir. Mas sempre que a morte visita o bar, ceifando a vida e a presença de um dos membros daquele ambiente cheio de realidades expostas ao mesmo tempo em que guardadas, pois o álcool nem sempre é capaz de romper determinadas barreiras pessoais, aquele pequeno grupo social, manifesta seu pesar.

Francisco era um grande sujeito, em todos os sentidos, mas um tanto ímpar também. Chamava a atenção a presença daquele camarada alto, me passava a impressão de medir dois metros ou mais. Além de alto, forte também, fora excelente capoeirista. Tinha um jeito sisudo, aquela famosa cara de poucos amigos, porque na verdade, quase sempre chegava e se isolava em uma mesa, com volumes consideravelmente grandes de textos em folhas, que lia meticulosamente por ser um profundo conhecedor da língua por profissão, e creio eu, por prazer também. Revisava textos de livros, revistas, publicações, e nesse momento, não gostava muito de ser importunado. Ostentava barba e cabelo compridos que não aparentavam receber muitos cuidados. Ombros largos, impossível não reparar o tamanho de suas mãos, quando as estendia para cumprimentar alguém. Mas terminado seu trabalho, a sisudez dava espaço a um jeito alegre e brincalhão. Insubordinado, não era muito dado a regras de etiqueta, nem à patrulha do "politicamente correto". Era um sujeito sincero, transparente, não se escondia atrás de encenações, era o que era e pronto! Costumava-se dizer em alguns bares aos quais frequentava, que bastante cedo começava sua via sacra pelos botequins que o tinham com deferência e como referência também, cruzando a cidade de ponta a ponta, para bater seu ponto em seus muitos "escritórios".

Recentemente havia escapado da morte em uma tentativa de assalto, chegou a ser baleado, mas era forte, não sucumbiu nessa ocasião. No entanto a morte não permite exceções. Apesar de tão temida, é bastante honesta, irá apresentar-se a todos, indiferente às diferenças que separam ricos de pobres, feios, bonitos, homens, mulheres... passei por um desses redutos boêmios por esses dias, apenas para confirmar a notícia de que os bares estavam mais tristes, um dos seus não mais apareceria. Francisco pegou o bonde.

Rodrigo

23 de outubro de 2009

Fauna de botequim


O corretor zoológico

Seu Jair era um sujeito solitário, já contava mais de oitenta com certeza. Talvez por viver sozinho, (não se tinha notícia de parentes, filhos, netos) adotara o bar e seus assíduos freqüentadores como sua família. Apesar da idade que certamente lhe proveu de incontáveis histórias, não falava muito de si. Gostava de carteado e apontava as apostas do jogo do bicho do último sorteio diário, horário em que a jovem Maria não podia fazê-lo, pois morava longe e tinha que cuidar da filha. Jair morava numa quitinete por ali mesmo, para ele era bom negócio, ficava assuntando, conversava com um e outro, arranjava uma vítima para raspar os bolsos no carteado, e de quebra, ganhava algum pelo serviço de apontador.

Era um excelente garfo, enorme, mas forte e ágil como um garoto, se considerada sua idade avançada. Comentava-se que sua taxa de colesterol beirava os 600, e como não poderia deixar de ser, virou alvo de chacotas do tipo: “Seu Jair! com esse colesterol, se levar uma facada vai levar um dia pra sair uma gota de sangue!”. Era fanático por carne de porco e costela de gado, tudo muito gordo e acompanhado sempre de uma dose de conhaque, mas eu mesmo nunca o vi embriagado. Devia pesar uns cento e cinqüenta quilos, e tinha um bordão: “Quero morrer depois do almoço, pra dar mais trabalho a quem carregar meu caixão!” Todos os garfos do botequim tinham os dentes entortados, como se o próprio Uri Geller realizasse suas apresentações ali. Mas aquilo era obra de Jair, que abria os dentes dos garfos com uma faca, para que pudessem apanhar mais comida. Nos pés, sempre um par de sandálias azuis, que pareciam sumir sob corpo tão imenso. Recordo que em um determinado ano, caí na balela de seus “três aniversários”. É que nesse ano, (se bem me lembro o ano anterior ao de sua morte) ele inventou que era seu aniversário em três datas diferentes. Como era benquisto por todos, ganhou sandálias novas, bebidas e lembranças em cada um desses dias, e fez com que ninguém reparasse em sua travessura, só mesmo no terceiro alguém se deu conta, mas deixou que ele acreditasse ter enganado a todos. Em meu dia de pato, dividi com outro conviva da fauna do bar, um almoço na cantina que ficava na esquina oposta. Nesse dia Jair chorou. Ainda não sei bem o porquê, talvez por arrependimento pela traquinagem, mas emocionou-se com o agrado. Somados esses aniversários, certamente chegaria aos noventa.

Todos estranharam o dia em que Jair não apareceu na abertura do botequim, nem no almoço e nem para apontar o jogo do bicho, ao cair da tarde. Quando chegaram à sua quitinete, ele já havia pegado o bonde. Ainda me pergunto se ele teve sua última e lauta refeição antes de morrer, como sempre desejara.

Rodrigo